Queridos(as) Cursistas, nesta unidade realizamos uma discussão sobre ciência e a forma como a mesma se materializa nos currículos e cotidianos das escolas. Apresentamos algumas propostas de abordagens pedagógico-curriculares da área e alguns exemplos de como os componentes curriculares podem se organizar – por meio de planejamentos individuais ou interdisciplinares – de acordo com os direitos à aprendizagem dos estudantes.
Sugerimos que você, e seu grupo, definam uma temática relevante para sua realidade, escolham uma das abordagens apresentadas e planejem uma unidade de ensino envolvendo os componentes curriculares da área de maneira interdisciplinar.
Feito isso, postem a atividade no BLOG.
Depois em formato de artigo postem no Portal Em Diálogo (http://www.emdialogo.uff.br/).
Se possível, apliquem com seus alunos e discutam como foi o trabalho em sala de aula e de que forma a unidade de ensino contribuiu para a formação integral dos estudantes na perspectiva das DCNEM.
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QUESTÃO 4
TELEFONIA
CELULAR: O PREÇO QUE O COMÉRCIO NÃO MOSTRA.
A
eminente necessidade de promover espaços de discussão quanto à ciência, o
conhecimento científico e tecnológico e suas implicações sociais está pautada,
entre outros fatores, à postura dos nossos estudantes frente ao desenvolvimento
científico e tecnológico. Postura esta que, de acordo com Vieira Pinto (2005)
manifesta uma forma particular de alienação que perverte a verdadeira
finalidade das produções humanas ao converter a obra técnica em valor moral (ibidem, p.41) e que a partir da “crença
na espontaneidade da máquina, aceita a materialidade imediata que exibe, sem
levar em conta o pensamento nela incorporado” (VIEIRA PINTO, 2005 p.73).
Inseridos
numa cultura de deslumbramento dos recursos tecnológicos, nossos jovens
estudantes não percebem que as “novas tecnologias mudam aquilo que entendemos
como ‘conhecimento’ e ‘verdade’, alteram hábitos de pensamentos profundamente
enraizados que dão a uma cultura seu senso de como o mundo é mundo” (POSTMAN,
1992 p.22, grifo do autor) e ao trazer uma gama de informações sem instrução
adequada reforça as relações de poder, o empobrecimento cultural, ético e
afetivo.
Somam-se
a todas estas consequências sociais e culturais uma série de impactos
ambientais decorrentes da falta de uma postura crítica quanto ao
desenvolvimento científico e tecnológico. A ineficiência em lidar com todas
estas questões promovem tanto o fracasso em explorar o potencial humano quanto
o potencial da tecnologia e, quando somados os efeitos negativos, essas
dificuldades “além de criar problemas individuais causam para a sociedade um
acúmulo de problemas como, dificuldades psicológicas, perda de produtividade e
inquietações econômicas” (VICENTE, 2003 p.29). Por conseguinte,
[...] precisamos formar estudantes com capacidade de
compreender as relações entre nossas técnicas e nossos mundos social e
psíquico, de modo que possam iniciar conversas informadas sobre onde a
tecnologia nos está levando e como (POSTMAN, 1992 p.203).
Estas
questões a cerca do desenvolvimento tecnológico estão contempladas nos
objetivos estabelecidos para o ensino de ciências no Brasil. De acordo com os
Parâmetros Curriculares Nacionais, PCN’s (1998) as Ciências Naturais no ensino
fundamental devem ser trabalhados de maneira que o estudante desenvolva
competências que lhe permitam compreender o mundo e atuar como cidadão,
utilizando conhecimentos de natureza científica e tecnológica. E que, no final
do ensino fundamental, desenvolvam algumas capacidades, tais como:
Compreender
a Ciência como um processo de produção de conhecimento e uma atividade humana,
histórica, associada a aspectos de ordem social, econômica, política e
cultural; identificar relações entre conhecimento científico, produção de
tecnologia e condições de vida, no mundo de hoje e em sua evolução histórica, e
compreender a tecnologia como meio para suprir necessidades humanas, sabendo
elaborar juízo sobre riscos e benefícios das práticas científico-tecnológicas;
Formular questões, diagnosticar e propor soluções para problemas reais a partir
de elementos das Ciências Naturais, colocando em prática conceitos,
procedimentos e atitudes desenvolvidos no aprendizado escolar (BRASIL, 1998b,
p.33).
De acordo com Auler (2003), em uma perspectiva ampliada a
AC busca a compreensão de interações entre Ciência-Tecnologia-Sociedade (CTS),
associando o ensino de conceitos à problematização destas construções
históricas vinculadas à suposta neutralidade da ciência e tecnologia (C&T),
como a superioridade do modelo de decisões tecnocráticas, a perspectiva
salvacionista, redentora, atribuída à C&T e o determinismo tecnológico.
Diante disto, faz necessário
repensar o Ensino de Ciências, contemplando os conteúdos dentro de uma dimensão
histórica, cultural, política e econômica, possibilitando aos estudantes
tornarem-se agentes reflexivos e participativos dos avanços científicos e
tecnológicos de seu tempo. Pinheiro, Silveira e Bazzo (2007) destacam que:
[...] a importância de discutir
com os alunos os avanços da ciência e tecnologia, suas causas, consequências,
os interesses econômicos e políticos, de forma contextualizada, está no fato de
que devemos conceber a ciência como fruto da criação humana. Por isso, ela está
intimamente ligada à evolução do ser humano, desenvolvendo-se permeada pela
ação reflexiva de quem sofre/age as diversas crises inerentes a esse processo
de desenvolvimento. (PINHEIRO; SILVEIRA; BAZZO, 2007 p.00).
Deste
modo pensou-se numa proposta de trabalho que parte de um ensino com enfoque CTS
a partir do tema “Telefonia celular, o preço que o comércio não mostra”.
A partir da discussão sobre aspectos sociais e
ambientais relacionados à tecnologia envolvida nos celulares, a abordagem tem
como objetivo principal proporcionar aos estudantes a reflexão sobre as
consequências do consumo descomprometido e alienado; sobre o custo/benefício
dos avanços tecnológicos, tanto no que diz respeito às relações humanas quanto
às questões ambientais envolvidas, a saber: escassez de recursos minerais,
degradação de solos, contaminação, produção e acúmulo de lixo.
A
proposta tem caráter interdisciplinar, pois aborda intrinsecamente questões
relacionadas à química, biologia, geografia, sociologia, filosofia e língua
portuguesa.
A
abordagem consiste nas seguintes etapas:
1- A partir da análise das imagens a seguir, promover um debate sobre a importância pessoal do celular em nossas vidas:
- 2- Leitura e discussão do texto “Consumismo: o mal do século” (Santos e Mól, 2013).
- 3- A partir da página: DW- Ciência e Tecnologia, disponível em: http://www.dw.de/telefone-celular-guarda-tesouro-em-mat%C3%A9rias-primas/a-16451931, serão explorados os seguintes temas:
- a) Estudo dos elementos químicos presentes no celular;
- b) Regiões mundiais de exploração de cada matéria-prima apontada;
- c) Impacto ambiental de cada matéria-prima explorada;
- d) Relações de trabalho envolvidas nas explorações: - quem são os trabalhadores dessas minas, garimpos, mineradoras – quais as condições de trabalho – questões de saúde destes trabalhadores;
- e) Aspectos econômicos e políticos;
- f) Lixo eletrônico: os problemas ambientais e de saúde humana;
- g) Lixo eletrônico: descarte e reutilização (possibilidades e implicações).
- 4- Pesquisa sobre as políticas públicas para o manejo do lixo eletrônico no município.
- 5- Entrevista com moradores do bairro para conhecer como os moradores tratam o lixo eletrônico.
- 6- Discussão de alternativas para amenizar o problema do descarte adequado de materiais eletrônicos na comunidade. (informação, sensibilização, etc.)
- 7- Apresentação dos resultados para a comunidade escolar através de uma mostra envolvendo atividades diferenciadas: teatro, paródias, exposições de fotos, cartazes, palestras.
Esperamos que, ao abordar de forma
contextualizada todos estes fatores relacionados à tecnologia dos telefones
celulares, os estudantes possam desenvolver uma postura mais crítica, superando
o deslumbramento e a visão ingênua frente aos avanços tecnológicos que se
apresentam e assim desenvolver uma postura mais participativa e questionadora.
As
unidades didáticas apresentadas já estão sendo desenvolvidas nas turmas de 1º
ano A e B do colégio.
Referências
Bibliográficas
AULER, D. Alfabetização
científico-tecnológica: um novo “paradigma”? Ensaio – Pesquisa em Educação em Ciências, V. 5 n.1, p 1-16, 2003.
BRASIL. Brasil.
Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais -
terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: Ciências Naturais.
Brasília. 1998b. Disponível em:
<http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/ciencias.pdf>. Acesso em: 27de
maio, 2015.
PINHEIRO, N.A.M.; SILVEIRA,R.M.C.F.;
BAZZO,W.A. Ciência, Tecnologia e Sociedade: a relevância do enfoque CTS para o
contexto do Ensino Médio. Ciência e Educação. Bauru, vol.13, nº1, 2007
Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S151673132007000100005&script=sci_arttext>
Acesso em 01/11/2014.
POSTMAN, N. Tecnopólio – a rendição da cultura à
tecnologia. São Paulo: Nobel, 1994. 223 p.
VICENT, K. Homens e máquinas. Rio de Janeiro:
Ediouro, 2005. 383 p.
VIEIRA PINTO, A. O conceito de tecnologia. Rio de
Janeiro: Contraponto, 2005. 531 p. v 01.
Professores:
Ionara, Sinara, Angélica e Jair.


